Breves ensaios sobre a rotina

Cortei

“Um quilo de acém, por favor!” – Disse o primeiro cliente do dia.

Eu já o conhecia de vista, era cliente de longa data, com o tempo se conhece cada cliente por aquilo que ele compra.
Este era uma exceção, não me lembrava de nada além de sua fisionomia.
Nas poucas vezes que levantou sua cabeça pude ver um olhar de tristeza.

Tão cedo e já assim? – Algo deveria ter acontecido, pensei.

Como não havia ninguém na fila atrás dele, já que o movimento pela manhã era fraco,
fruto do efeito fim do mês quando todos aguardam pelo próximo quinto dia útil, resolvi perguntar…

Ok!

Também tinha um outro ponto, ele era um rapaz bonito, mas não fazia muito meu tipo…

O que estou falando?
Eu sequer tenho um tipo.
Ricardo era negro e alto, Paulo era branquelo, gordinho e baixinho,
criado pela avó, cheirava leite.

Então, perguntei se ele estava bem.
Ele titubeou em responder, mas disse que tudo estava ótimo.
Mentira! Claro que era mentira.
Sabe aquelas mentiras que usamos todos os dias para sermos convenientes?

Então, típica!

Ele percebeu que eu não acreditei, então ensaiou me falar:
“A gente cresce sendo criado pela nossa mãe, mas nunca espera um dia ter que cuidar dela.”

Eu não sei, não tenho mãe, nem lembranças dela.
Mas imaginei a situação envolvendo eu e meu pai, para que fizesse algum sentido.
Eu que não queria criar aquele turrão!
Meu pai ainda esbanjava saúde, então nunca cogitei essa possibilidade.

Ele continuou:
“Cuidava há 5 longos anos da minha mãe, consumida pelo Alzheimer, não falava mais, não andava mais, não esboçava nenhuma reação.
As vezes balbuciava algo incompreensível.
Anteontem tudo isso chegou ao fim, eu a vi respirar pela última vez.
Eu já esperava por esse dia com uma bela dose de aceitação, mas parece que agora todas as lembranças boas resolveram voltar, todas ao mesmo tempo.”

Confesso que na hora me arrependi de ter perguntado, sentia em mim uma dívida.
Eu cobrei suas palavras quando perguntei se ele estava bem, e agora lhe devo uma resposta, algo que o console, que afague o esforço que fez em me contar.
Mas eu não tinha nada a dizer além de um insosso:
– Lamento.

Logo na sequência chegou um segundo cliente, era a esquiva ideal para encerrar aquele momento capaz de me arrastar durante o dia todo, imaginando mil e uma possibilidades sobre meu pai.

Evitei, voltei ao batente.

As coisas
como são tristes
é preciso separar
umas das outras
separar é cortar
muitas coisas é preciso
guardá-las cortadas
pra caber
meu trabalho é cortar
(como são tristes as coisas)
meu trabalho é caber

Ana A.
Açougueira

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Solidão

A solidão é uma danada,
me inspira sem dó
a preencher todo o seu nada.

Berrante escarlate

Prefiro todo esse vermelho
berrante escarlate,
de sangue,
de dor,
– um amor que me mate! –
a todo esse cinza,
de peito gelado,
e anunciado
num luminoso apagado:
– Aqui jaz calado
um coração.

Prefiro essa esquizofrenia,
que casa com meu peito
feito dedo que casa com a quina.
Repatriar a alegria
de encontro ao meu leito.

Prefiro sonhar além
que viver o desdém
de vida não dividida.
E os sem borboletas na barriga
chamam de refém
quem no amor não vê saída.

Pobre peito cinzento
que o acalanto do relento
troque por um de carne
– da cor de escarlate –
seu coração de cimento.

Mendigo

Eu sou
um mendigo às avessas
espero que o mundo aceite
minhas maiores riquezas.

Crime

Foi um crime sim
A hora de ir embora
te roubou de mim

Dia a mais, dia a menos

O dia acorda.
Palpita: – Me debita,
ou me transborda?

Guilhermina flor

É o cúmulo
a flor trair o amor
com o túmulo.

O Silêncio

Que o som do vento seja uma prece
aos versos que enterro como indigentes.
O dito não-dito que se desconhece,
cerrado na boca, sucumbe aos dentes.

Palavra calada é sombra aos ouvidos,
é silhueta da luz que a representa.
Até o silêncio tem seus artifícios,
blefa ao ser lido pelo que se inventa.

Paixão

Paixão

       é garganta seca

quando se tem

       água na boca

Consumo (parte 2)

O consumo
é a fome
que come
casa,
tempo,
nome.
E a vida
consome
o homem,
depois some.

A Dança

Quando a música 
              se cala
o silêncio
       é ensurdecedor.

Gosto gasto

Cansa, descansa.
Se enerva, se amansa.
Se cobra, se arrasta.
A festa vasta se dança.

Pois não basta,
nem se abasta
em bonança.

Tudo pra mim é pouco
e de pouco em pouco
não me é mais nada.

O tédio consome
com a fome
de quem come a calma.

Cansa de novo.
Descansa de novo.
Cansa de velho.
Descansa por gosto.

E assistindo tudo
daquela segura distância,
procurando a razão de quem alcança,
degusta da vida
como uma doce bebida
que de pouco em pouco
vai ficando rança.

Tédio e antítese

Criei
em mim
remédio.
Criar
é a antítese
do tédio.

A construção do indivíduo

A traça traça o traço que traça a traça

A traça traça o traço que traça a traça.

O Refém

Montaram o cenário:
“O Refém do salário interpreta um otário”.
Confesso que seria hilário,
senão fosse diário.

O Refém

Ilustração de Gustavo Almeida.
semanatomia.wordpress.com

Natimorta

Minhas convicções
serão recém-defuntas,
o parto das minhas respostas
será velado por novas perguntas.

Calendário


Desejando
     o passado,

subestimo
     o futuro.

Na prisão do
     calendário,

um velho sonho
      é o muro.

O teatro do retrato

Habito o hábito
de parar e reparar,
ler o verso ao inverso,
e decorar a cor de cór.

A tradução da contradição
é minha venda que não desvendei.

Não revelo só o que é belo,
mas sou tudo aquilo
que retenho na retina.
Sou objeto de minha objetiva.

Univer só

Com olhos no infinito,
somos grito,
somos busca
de algum silêncio
que descubra
essa nossa solidão.

universó

Ilustração de Gustavo Almeida.
semanatomia.wordpress.com

Apego

Pedi à minha mente sonhar,
mas ela foi preguiçosa.
Plagiou o próprio passado,
tramou um remake cansado,
daqueles que se assiste sentado,
até o sofá se cansar.

Ilustração de Gustavo Almeida. http://semanatomia.wordpress.com

Ilustração de Gustavo Almeida.
semanatomia.wordpress.com

Invenção

A poesia me induzia a rimar
palavras com o que eu sentia.
Excedi à fantasia e errei,

exagerei.

Rimei qualquer palavra esparsa.
Inventei tamanha farsa
de tudo que nem vi, nem senti.

E assim no meio dessa mentira
percebi que a poesia
era mais do que eu escrevia,

era falar sobre tudo aquilo que não vivi
mas que na minha invenção, viveria.

Sem pé nem cabeçalho

Eu me calho
ao trabalho
de reatar
um retalho.

Nessa ata
sem atalho
eu malho.

Sem ralho
me espalho,
mas logo falho.

Eu encalho.

Em leito de rio seco,
rico só de cascalho.

Será que me fizeram um trabalho?
Haja dente de alho,
um amuleto, penduricalho.

Então, eis que me valho
de uma carta no baralho:
– Este poema que aqui entalho
é o próprio retalho
que eu tanto detalho.

Epitáfio

Sangra
.
.
.
...o bico da caneta.

Põe a tampa,
fecha o caixão.

E foi nesse obituário
que se descreveu
o próprio escrivão.

Haikai do dinheiro

Dinheiro mente.
Olhe só, para cada
conta, corrente.

Zona de conforto

Esse modo
molde
de gesso

se que
      bro
         u.

     Perdeu pé,
cabeça, 
    estribeiras.

    Perdeu rota,
roteiro,
       endereço,

quando seu ponto de partida
se partiu           no meio.


Intenso

Entregue
ao intenso,
invento
    o dom,
      o bom,
    e o senso.

    Cabe o
        hedonismo
            no
       idôneo abismo
                  que penso.
                     (imenso)

Carnaval

   Amor é festa!
Vestia fantasia
   texto na testa.

Assinado ou incinerado?

Sou fiel à dúvida,
ela me fez de vez talvez.
Sem assim, um sim a nanquim.
Nem verão um não a carvão.

Memória é tinta solúvel em álcool

Memória é tinta solúvel em álcool

Memória é tinta solúvel em álcool

Oração decoração

Coração,
decora
a ação,
que é ora,
são,
ora,
ação.

Que
oração
decora
a ação?

E que
hora
é são
o coração?

Poesia da construção civil

Por uma cidade
com menos frentes frias
e mais traseiros quentes.

Olhos nus, olhos

Cabe à poesia
incomodar os acomodados
e tranquilizar os incomodados.

E mesmo quando a língua míngua
e o silêncio fala,
há de a dor — ardor —,
tecer o verbo que toda a raiva rasga.

No papel,
no estômago,
nos olhos nus,
olhos.

Trago no suspiro

Minha vida é o suspiro de minha maior invenção,
e tudo aquilo que desencoraja minha renúncia reconheço por saudade.
As saudades do futuro que eu não veria,
dos textos que eu não escreveria,
dos filhos que não teria e dos espelhos que não me refletiriam velho.
Saudades de não levar comigo tudo o que há de nascer em mim,
pelo ar, pelo chão, ou pelo relógio.
Por tudo isso, trago nesses anseios a tutela dos meus sentidos,
e do futuro, minhas maiores saudades.

Carta aos convictos

Para que o medo não me cale
e a coragem não me cegue.
Nem esse texto por mim fale
e o seu peso me leve.

Para que uma fuga não me afague
em vasta venda que me veste.
Para que linhas não me apaguem
e nem eu pague ao que me apegue.

Para que a chama não me chame,
e essa sede não me seque.
Para que o meu rio não me derrame,
nem minha isca então me pesque.

Para que um fato não me fite
ou algum ditado me dite.
Nem ao acaso o meu descaso
ponha em mim seu dedo em riste.

Para que a inércia não me agrade
e nem que todo o caos me tente.
Para que de inteiro eu faça parte
do estandarte ao diferente.

Para que a vida seja arte
é a surpresa que eu espero,
que me perdoem os convictos,
mas eu sequer sei o que quero.

Consumo

Sou cano quente,
sou bala al dente,
sou ferro fervente
fumegando à boca.

Sou mira dada,
par de mãos suadas,
além dessa alçada
sou a prece rouca.

Sou o tambor
que embalou a bala,
presenteou a vala
de mortalha aberta.

Gastou o gosto
tirado e posto,
comprou com imposto,
demanda e oferta.

E no suor
dessa minha caçada,
presenteio a bala,
com alguma testa.

Sou só desejo
que controla um corpo,
a beleza do pouco
me soa indigesta.

Bate de frente
impulso contundente,
sou posse, sou mente
fitando a loucura.

Brutas vontades,
vê como invadem
– animal selvagem
consumindo a cura.

A par dos olhos,
e dos meus ouvidos.
Tange às falanges:
– Dedo no gatilho.

A pele sua

Minha boca ao ter a tua
é um detento ao ver a rua.
A minha mão, a tua cintura,
que toda a brasa nos possua.

O breu da noite, a luz da lua,
o tango de pernas se mistura.
Olhos fechados, sala escura,
a nossa pele nua sua.

Ponte

No meu bem entender,
escrever é uma ponte
que permeia o meu querer,
e se finda na minha fonte.
Atravessar é perceber
a prova, a trova que desponte
meus atalhos, meus porquês,
qualquer verbete que me conte
uma palavra pra dizer
onde longe a rima esconde.
Escrevinhando? Pode ser.
Que o poema não desmonte.

O coração e o tempo

Um dia
o coração quis falar com o tempo,
quis apagar o ressentimento,
adiantar um pouco de leveza.

Mas o tempo
não queria conversa,
Disse “não, não venha com essa
que é na pressa que vou devagar”.

O coração
já errando o compasso
num batuque escasso
hesitou em esperar.

Pois o tempo
é negligencioso,
é cruel e preguiçoso.
Até parece gostar.

O coração
Sem saber o que fazer
decidiu se esconder,
quis até se transplantar.

E o tempo
segurando os ponteiros,
até riu do berreiro
a lhe chantagiar.

– Tempo, meu tempo, não passe lento
que o presente é meu tormento e só quer me torturar.
Eu faço tudo, aceito a paz em um segundo,
ou rasgo planos pro futuro se o passado retornar.

– Mas coração pare de tanto fricote,
quando tu batias forte, me querias devagar.
Te faço vivo, dou histórias como abrigo,
tu só vês o teu umbigo e ainda quer vir me culpar.
Eu te alimento e não tem nem cabimento
jogares teu sofrimento pro meu jogo de azar.
Tu vens com essa, controlar a minha pressa,
só que quando tudo é festa tu nem quer me ver passar.

O coração
não quis mais bater de frente,
fez quem cala e não consente,
queria sim negociar.

Sábio o tempo
que conquista sorrateiro
terreno feito grileiro,
nem precisa se esforçar.

E o coração
que se viu na sua ilha,
ampulheta de argila,
aceitou assim jogar.

Esquece o tempo
e viaja o mundo inteiro,
vai cessar o seu berreiro
para enfim se batucar.

Ele foi preso

num exótico ato de desobediência civil.
Abraçou a rua, vandalizou todo o cinza,
gritando palavras de amor.

Locomovida

Aqui se indaga, se gaba, se agrada e se estraga.
Se apega, se nega, se escreve e se apaga.
Se ama, declama, reclama e se afasta.
Se trama, se inflama, se engana e se engasga.

Se rende, se vende e não se entende nada.
Deita e ajeita a cabeça pesada.
Chora e aflora, se afoga e se alaga.
Grita, se agita, se implica e se empata.

Levanta, se encanta, se janta e se farta.
Se vive inclusive aquilo que descarta.
Se é o que lê, o que escreve, o que cala,
o que come, consome, o que fere e o que fala.

Reitera e tempera as próprias palavras,
num mosto a gosto do ferro e da brasa.
Se acusa, se julga, se azeda, se amarga,
e pensa se aguenta essa imensa escada.

E convém?
E convém?
Descarrila esse trem,
sempre a se perguntar.

Sã e Salva

Desgosto em gosto doce e amargo 
morre em silêncio
com suas palavras delicadas, já desencontradas, 
eu penso.

A contragosto deixou de lado, o que era nós se desatou,
assistindo a infelicidade o meu olhar se encharcou.

Sinto forte sua fragrância, que é redundância no meu colchão,
abracei o travesseiro por medo, sentindo o sabor da solidão.
Há de o passado ser muito, mas por presente há o amanhã.

Espero acordar sã,
espero que esse divã,
não me venha em vão.

Uma lembrança que não descansa 
faz pensamento,
sussurro sonhos pagos, de olhos fechados, 
dispenso.

Fiz o oposto por orgulho vago, sentindo raiva dessa dor,
revirei possibilidades e a insônia acompanhou.

Eu remoí até o fim, porque eu não me perdoava,
era só bala de festim, e a garganta engasgava.
Eu me dediquei a minha espera, enfim, melhor a minha maneira,
encontro-me agora inteira sem o que era metade.

Aliteração

Descaso desse caso de dor,
descompasso e num passo passei
desse pedido despedido de sonho
do canto do canteiro a um rei.

Me calo e o calo do calor da vida
oculta o culto que vai da vaidade
à uma angustia da idade que é vil,
posto ao oposto viu a maturidade.

O braço abraça basta o breu ou a brasa,
do mastro o mestre mostra a amostra do vasto,
bandeira branca briga brava com o vento,
fugindo ao fundo fraquejou esse barco.

Entende, e tende ao tempo atender nada,
quando o mando for sempre do nunca,
enquadra o quando e idealizado perdura,
mas não adianta segurar esse trago.

E eu, na minha melancolia
aliterei minha poesia,
e decompus a agonia
em escrivania.

Figura de linguagem

Tu não te aturas na clausura,
mas te seguras na loucura.
Realidade não te cura,
então a palavra se figura,
e se constrói literatura.